"Huaco", César Vallejo

César Vallejo jogou as letras do idioma de Pizarro em vaso cerimonial, temperou-as com ervas e preces quíchuas. O que ficou no fundo, sacudiu com as mãos ossudas até obter o movimento rotatório construído com papel e barro - o círculo milenar que guarda lhama, condor, puma e poeta. Muito além dos Andes paira o mistério da passagem ritualística do micro ao macro, viagem clandestina do ponto de sagração e de sangramento à esfera instável do planeta e de todo o universo. Meu exercício de tradução é mais um gesto de devoção.
Huaco
Yo soy el coraquenque ciego
que mira por la lente de una llaga,
y que atado está al Globo,
como a un huaco estupendo que girara.
y que atado está al Globo,
como a un huaco estupendo que girara.
Yo soy el llama, a quien tan sólo alcanza
la necedad hostil a trasquilar
volutas de clarín,
volutas de clarín brillantes de asco
y bronceadas de un viejo yaraví.
la necedad hostil a trasquilar
volutas de clarín,
volutas de clarín brillantes de asco
y bronceadas de un viejo yaraví.
Soy el pichón de cóndor desplumado
por latino arcabuz;
y a flor de humanidad floto en los Andes,
como un perenne Lázaro de luz.
por latino arcabuz;
y a flor de humanidad floto en los Andes,
como un perenne Lázaro de luz.
Yo soy la gracia incaica que se roe
en áureos coricanchas bautizados
de fosfatos de error y de cicuta.
A veces en mis piedras se encabritan
los nervios rotos de un extinto puma.
en áureos coricanchas bautizados
de fosfatos de error y de cicuta.
A veces en mis piedras se encabritan
los nervios rotos de un extinto puma.
Un fermento de Sol;
levadura de sombra y corazón!
levadura de sombra y corazón!
Huaco
Eu sou o coraquenque cego
que olha pela lente de uma chaga,
atado ao Globo
como a um huaco estupendo que giragira.
Eu sou o lhama, a quem tão só alcança
a necedade hostil de tosquiar
ornatos de clarim,
ornatos de clarins brilhantes de asco
e bronzeados de velho yaraví.
Sou filho de condor desplumado
por latino arcabuz;
e à flor da humanidade flutuo sobre os Andes
como eterno Lázaro de luz.
Eu sou a graça incaica que se rói
em áureos coricanchas batizados
de fosfato de erro e cicuta.
Às vezes em minhas pedras se encabritam
os nervos exaustos de um extinto puma.
Um fermento de Sol;
levedura de sombra e coração!
que olha pela lente de uma chaga,
atado ao Globo
como a um huaco estupendo que giragira.
Eu sou o lhama, a quem tão só alcança
a necedade hostil de tosquiar
ornatos de clarim,
ornatos de clarins brilhantes de asco
e bronzeados de velho yaraví.
Sou filho de condor desplumado
por latino arcabuz;
e à flor da humanidade flutuo sobre os Andes
como eterno Lázaro de luz.
Eu sou a graça incaica que se rói
em áureos coricanchas batizados
de fosfato de erro e cicuta.
Às vezes em minhas pedras se encabritam
os nervos exaustos de um extinto puma.
Um fermento de Sol;
levedura de sombra e coração!
Notas do tradutor
Huaco, cerâmica pré-colombiana. Corequenque, ave sagrada dos incas que usavam as suas plumas na confecção de coroas destinadas aos soberanos. Yaraví, canção que funde elementos de origem indígena e hispânica. Coricancha, grande Templo do Sol, em Cuzco; sobre as suas ruínas os espanhóis construíram a igreja de Santo Domingo.

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